Prateleirismo nato

O último Câmara Clara antes das férias da equipa do mesmo teve como convidada Sara Tavares, música de raízes africanas que trabalha a solo e já gravou com o grupo Ala dos Namorados (de onde tirou maior parte da fama nas massas consumidoras). Ouvi o último álbum que editou e não me encheu as medidas, o meu conhecimento na área da cultura crioula é demasiado reduzido para se dizer existente, a aculturação nunca foi feita e portanto a apreciação não foi de grande nível. Durante a conversa com Paula Moura Pinho, apresentadora do programa, Sara revelou-se uma surpresa, para além da deliciosa forma de falar, com uma calma extremamente cativante, a cultura, o ecletismo, a actualidade e o à vontade estiveram presentes durante o programa.

Paula Moura evocou um assunto que me despertou a atenção, abordou Sara sobre a questão da categorização da música e de o facto de os seus discos estarem na prateleira da World Music. Sara fala numa vontade de “ultrapassar” esse rótulo ou de conseguir que a cultura crioula ganhe o seu próprio rótulo na indústria discográfica, como fizeram os brasileiros para a Bossa Nova ou para a MPB (Música Popular Brasileira). O facto é que esta sociedade da informação e cada vez mais burocrática tem uma necessidade instintiva de categorizar e rotular toda a informação com que trata. Quantas vezes foi já confrontado com a necessidade de usar esta categorização para apresentar algo novo a um amigo? A arte, e em concreto a música, não é algo que mereça um aprofundar nesta inevitável rotulação: existem para mim três grandes géneros musicais, que realmente importam e que devem ser tidos em conta, a Música Erudita o Jazz e a Música Ligeira, toda e qualquer tentativa de tentar ir mais longe é em vão. Possuo uma vasta colecção de música e já fui ao encontro desse exercício, e já esbarrei contra um muro por várias vezes. É cada vez menos notória uma separação entre os géneros musicais, as influências misturam-se e resultam em variantes ou em novos géneros, mas é insignificante a denominação destes, coisa que as massas consumidoras e os órgãos responsáveis pela divulgação da informação teimam em fazer. O detalhe pode ir ainda um pouco mais longe, mas arriscando um pouco no campo da veracidade: o Rock e o Folk são distintos, mas depois há quem tenha criado algo que para alguém suou à mistura dos dois (Folk Rock), o Jazz teve imensas épocas e formas distintas mas houve quem tivesse atravessado várias as tivesse misturado, a música erudita sofreu já de uma intensa amálgama de diferentes elementos de diferentes épocas com resultado em algo novo mas familiartoda esta evolução natural da estética, que acompanha a evolução e mudança na sociedade e nas relações humanas, tem transformado a forma como se desfruta hoje de uma obra de arte, a objectividade é um termo cada vez menos verídico aquando a apreciação da estética, esta deve carecer das formas mais primárias de cada um dos sentidos.

Outra vez os limites…

sociedade

De uma conversa pintada em tons de desabafo surgiu uma pequena reflexão sobre limites. A civilização desenvolveu-se, bem ou mal, sob estratificações e padrões, padrões esses que proporcionaram a ordem e consequente evolução. O mundo civilizacional desenvolveu-se e encheu-se de complexidade, daqui resultou a sociologia e a necessidade de estudar os comportamentos enquanto indivíduos co-dependentes. A sociedade impõem-nos uma série infinita de regras e tendências que guiam o nosso pensamento e as nossas acções, ser socialmente aceitável não é mais que respeitar à risca estas regras e tendências. Disse, à outra pessoa com quem tive a conversa, que não me considero um produto social do mais apetecível e que nunca me preocupei muito com isso, num grau de menor profundidade, noutra conversa, afirmei que as variáveis que compõem a forma como me visto mudam ao sabor da integração social mas que têm limites bem definidos. A verdadeira questão é até onde vão esses limites, não só nas questões fúteis da combinação cromática e da estética indiferente mas em todo o problemática que é a nossa imagem aos olhos dos outros. Qual o ponto certo que divide aquilo que somos daquilo que os outros querem que sejamos? Não é este mundo, o das relações, um dos mais frágeis? Enquanto ser crítico procuro afirmar a minha identidade perante um mundo que se deixa dominar pelas pressões (agressivas ou passivas) dos grandes grupos, mas o problema é aquilo que sou é já um conjunto de ideias que me foram passadas na minha formação enquanto parte integrante da sociedade e não a forma pura de pensamento, todo pensamento está hoje pré-estruturado…é impossível alguém afirmar-se como totalmente único.

Divaguei por uma série de palavras mentais e tenti resumi-las em papel. É madeira para a fogueira, nada mais.

Epidemia Jackson

O que é demais é moléstia! Até o spam já anda à volta do Michael Jackson:

Hey, have you seen this news article?
New details about Michael Jackson’s Death Emerge
I was wondering if you were going to blog about this…

É verdade, se o homem vivo me metia uma ligeira grande impressão então depois de morto começa a incomodar-me profundamente, o youtube substituiu a publicidade por uma imagem dele, a televisão encheu-se (em qualquer canal) de homenagens ao rei do show business. Bem que o Céu já se deve ter enchido de paparazzis e multidões histéricas de adoração à imagem e ao easy-listening. A blogosfera anda de um lado para o outro em moonwalk. Os discos esgotaram e a família até veio dizer que lamentava o facto de o homem ter mais sucesso morto do que vivo (a Sony Music não concorda: $$). Ainda bem que não tenho ido ao Twitter.

Chateia, e de que maneira! Por duas razões:

1. Os excessos não são saudáveis para ninguém;

2. Não merece nem um milésimo da atenção, porque na volta até existem muito melhores dançarinos que ele que não têm atenção nem em vida nem na morte (não vou sequer falar de música…);

É altura de deixar o homem morrer em paz. Tem direito a um R.I.P. não?

Foge Foge “Manel”

Ontem, dia 28, o meu telemóvel marcava perto das 22.30h quando as luzes da plateia do Centro de Arte de Ovar, recentemente inaugurado, se apagaram. Entra em palco Manuel Cruz com o resto dos instrumentistas que o acompanham nesta tour do projecto Foge Foge Bandido, primeiro projecto a solo de “Manel”. O espectáculo começa com o som de uma motorizada, intitulado “Casal Boss” segundo o disco editado.

O concerto, muito intimista (mesmo ao meu estilo), com zero de show off, mereceu os míseros 5 euros que garantiram a entrada a um bom número de pessoas que não foi por muito que enchiam a sala. O artista optou por não seguir o alinhamento do disco, decisão que deve ter resultado de questões de logística, o que não foi do meu total agrado. A diversidade de instrumentos e sonoridades explorados (como no disco) deram uma excelente dinâmica ao concerto. Terminaram da melhor maneira, depois de terem saído e regressado ao palco, com a música “Ninguém é quem queria ser”.

Voltando-me para o artista em particular e deixando o espetáculo de lado neste discurso informal: quanto a mim Foge Foge Bandido é melhor forma do estado de maturidade de Manuel Cruz, que passou por projectos reconhecidos como Ornatos Violeta, Supernada e Pluto, tendo ainda escrito duas canções para a banda Clã. Neste projecto o músico colhe uma série de sonoridades distintas e mistura-as ao longo de um álbum conceptual com muito (oportuno) experimentalismo, energia, magníficas letras, crítica e intenção.

Inspirador para algumas das bandas emergentes em Portugal, poeta, intencional…

Sejamos prudentes…

Na página Neowin está noticiada uma novidade da Microsoft, um estrondo no mundo dos jogos e sobretudo no mundo da interactividade. É uma nova tecnologia que pode ser vista como uma evolução da já conhecida tecnologia apresentada pela Nintendo na consola Wii, em que o controlo dos jogos passam a ser feitos através de movimentos físico e idênticos aos necessários para que as acções se dessem na realidade, a verdadeira novidade por parte da Microsoft é que não são usados quaisquer tipo de controlos-remotos para accionar os movimentos. O projecto chama-se Natal e foi apresentado na exposição de jogos E3, em Los Angeles. Ver vídeo demonstrativo.

No âmbito deste projecto foi apresentado um novo conceito que traz para o mercado de consumo a Inteligência Artificial do mais alto nível. A BBC fez uma demonstração deste “jogo”:

Esta nova peça do entretenimento leva-nos para uma profunda análise das consequências que têm tais aproximações do real ao simulado em todos os conceitos que envolvem a vida social. A personagem do jogo é capaz de transmitir e interpretar (do “jogador”) um número vasto de emoções, manter uma conversa, desenvolver uma história, simular ligações afectivas, reconhecer vozes, olhares e expressões…As preocupações que me despertam este jogo já não são novas e são semelhantes às resultadas dos mundos virtuais como Second Life, o que diferencia este novo conceito é que não existe nenhuma pessoa do outro lado, mas um conjunto de funções matemáticas. O jogo parece pretender simular a relação de mãe/pai e filho, ou pelo menos poderá caminhar nesse sentido. Podemos chamar Spielberg à conversa, e fazer um certo paralelismo entre o produto da Microsoft e a visão dele em A.I. (Artificial Intelligence). A verdadeira ameaça não está no “jogo” mas sim nas mentalidades que poderão não estar preparadas para tal aproximação do real sem que nasçam ligações fanáticas à personagem, mas tudo isto é questionável e ambíguo, a intenção não é defender uma tese de doutoramento mas fazer rolar a engrenagem crítica.

O que separa os dois génios

Segundo a Wikipédia o album The Dark Side Of The Moon dos Pink Floyd vendeu mais de 34,380,000 de cópias; na mesma fonte encontro que o album Thriller do falecido Michael Jackson vendeu mais de 100,000,000. A blogosfera e os média enchem-se hoje de homenagens a este “vendedor dançante”, relembrando os seus êxitos, os seus feitos humanitários…

Eu aproveito esta euforia toda, este vale de lágrimas transparentes, para ouvir The Dark Side of The Moon, um dos maiores álbuns alguma vez produzidos na música ligeira. Os 65,620,000 (números muito aproximados, talvez maior até) discos vendidos que separam este do Thriller são representativos daquela que é a margem que separa o génio musical do génio do marketing, fruto também da época.

Se há alguma coisa para recordar deste senhor Jackson são os seus feitos humanitários, que na volta não são tão impressionantes como são os de outros que vão em missões com poucas ou nehumas condições. Mas se a máquina capitalista teima em não desaparecer, já que estes MTVs sabem que a caridade os ajuda a marcar pontos no ranking da fama, então que se vá matando alguma fome.

Querem falar de um fantástico teledisco que tem uma enorme aproximação ao cinema? Sim, o Thriller. Então falemos antes do album The Wall e do respectivo filme?

Deixo agora aqui, não um teledisco do Jackson, não um documentário extenso da sua vida nem uma entrevista onde faz a apologia da sua existência…

Parte 1:

Parte 2:

Parte 3:

Parte 4:

Parte 5:


Os primórdios da música.

Pitágoras deu ao mundo explicações matemáticas para cada som, a base para a construção de muitos instrumentos musicais criados e ainda hoje existentes.

O Público avançou com uma notícia onde é apresentada a descoberta do instrumento musical mais antigo conhecido até hoje, é uma flauta de osso e foi descoberta no sudoeste da Alemanha. Os arqueólogos datam-na com mais de 35 mil anos.

Estou convictamente convencido de que a primeira intenção musical data muito mais que 35 mil anos. A minha experiência diz-me que é a música é estratificada da seguinte maneira: a forma mais pura e mais natural é o ritmo, que está bem presente na chamada música étnica enraizada nos povos menos desenvolvidos do ponto de vista do intelecto; de seguida a melodia, que se constrói com base na entoação que pode ser básica ou não; por fim, e no topo da pirâmide da complexidade, a harmonia, que, no meu entender, nasceu da necessidade de dar profundidade à música, de acompanhar uma melodia, pura evolução – J. S. Bach é por muitos aclamado rei da composição harmónica.

Junte-se ao rebanho!

Encontrei por puro acaso esta imagem no Deviantart. Achei simplesmente hilariante!

Escola é escola!

O polémico caso da docente de História que dava aulas em Espinho tem atingido de pé cheio a opinião pública. Para quem não está por dentro da notícia:

Uma professora da Escola Básica 2,3 Sá Couto, de Espinho, está suspensa e enfrenta um processo disciplinar na sequência de alegadas alusões a orgias sexuais, durante uma aula, gravadas em áudio por uma aluna. in PÚBLICO

Este caso vem dar mais provas de que o actual conceito de escola está errado e carece de mudanças. Uma Escola que hoje se define, mais do que como transmissora de conhecimentos académicos, por uma orientação na formação pessoal de cada aluno. São incutidos valores, ensinadas regras da sociedade, passadas dicas de como sobreviver no mercado de trabalho… são moldadas as mentalidades de futuros cidadãos, eleitores, responsáveis pelo funcionamento do país e do mundo. Claros são dois factos: as regras,valores e dicas são de carácter, muitas das vezes, duvidoso e  são demasiadas competências para uma só instituição.

Os miúdos ou adolescentes, como lhes gostarem de chamar, passam demasiado tempo na escola o que nos leva, da parte deles, para uma desvalorização do espaço, das regras e das pessoas. O recreio, por consequência do excesso de tempo, tornou-se numa selva onde os valores morais não existem ou estão distorcidos, as pressões de grupo prejudicam mentalidades, são alimentadas nódoas como o narcisismo, consumismo, materialismo, o individualismo e a estratificação social de forma selvagem.

Todos estes problemas são trazidos do recreio para a sala de aula e inclusivé para o panorama social. Com todas as tentativas de guiar os jovens para uma boa conduta social e para os incentivar à vontade de aprender o acto de leccionar passa para um plano inferior. Recorre-se a facilitismos de forma a contornar as lacunas académicas dos alunos, isto começa a ser muito explícito nas provas a nível nacional, e a pseudo-planos tecnológicos, de leitura, entre outros, de forma a dar a parecer à população comum de que o sistema educativo evoluí.

Se a escola se resumisse ao carácter académico (que já teve, embora com métodos pouco ou nada humanos) as vantagens seriam lógicas: redução nas despesas, redução da carga-horária, maior produção, maior eficiência por parte dos docentes, mais matéria em menos tempo, mais esclarecimento e rigor na aprendizagem…

Neste caso da professora de Espinho, como já disse a FENPROF, tem de existir um processo de averiguações sem precipitações, mas, pelo conteúdo da conversa gravada na sala de aula, podemos concluir que não há qualquer tipo de razão para que a docente não seja punida, o que está em causa é o grau desta punição. A professora foi muito além das suas competências e para além disto humilhou uma menor em plena sala de aula, em frente aos colegas, que podem ser bastante cruéis, ameaçou-a ainda com aquilo a que se chama ter a faca e o queijo na mão, dizendo que a iria prejudicar na avaliação – abuso de autoridade e perda de credibilidade nas avaliações feitas até hoje. O que complica este caso é o facto de este tipo de gravações não serem, por lei, usadas como material de julgamento em tribunal, visto que vai contra todas as regras de liberdade individual – são das questões mais complicadas que estão por resolver há décadas, sobre as quais não consigo tecer nenhuma opinião concreta. Para juntar a este enigma judicial os restante alunos da escola em causa manifestaram-se em defesa da professora.

R.I.P. Ian Curtis

Escrevo este artigo ao som da música “Love Will Tear Us Apart”, obra de Ian Curtis e dos restantes membros da banda Joy Division, cujo nome é inquietante, porque, embora contrariado pelos elementos da banda, os ligue directamente ao nazismo e à chacina de judeus. Hoje faz, precisamente, 29 anos que o vocalista e líder da banda se suicidou. Epiléptico, mentalmente desiquilibrado, problemático mas único.

O porquê da minha afeição com esta banda está no facto de terem marcado o fim do Rock, concretamente com o post-punk. Não são geniais musicalmente nem têm letras do outro mundo, mas tiveram o seu lugar na história da música ligeira, numa época de mudança e de falta de uma clara pretenção por parte da sociedade de consumo. A biografia que conheço deles baseia-se toda nos factos apresentados pelo filme Control (que não passa de uma biografia do Ian Curtis) e do filme 24h Party People que retrata a música nos finais dos anos 70 e o nascimento do conceito Rave (que desprezo por completo) que deu origem às discotecas de hoje, que não é mais do que um caminho fácil e financeiramente enriquecedor para aqueles que tinham espaços de concertos e de diversão nocturna.

Joy Division – Love Will Tear Us Apart  }