
Era eu ainda um moço, naquela idade da inocência e da pureza de sentimentos, quando me maravilhava com um disco que tinha o meu pai: “Noites Passadas” de um tal Sérgio Godinho. Desconhecia os motivos da sua música, a sua profundidade ou complexidade, limitava-me a usufruir da sua estética musical da forma mais pura que os meus sentidos me ofereciam, de resto como em tantos outros discos que me foram dados a ouvir. Este gosto tornou-se, uns anos mais tarde, quando a consciência começou a espreitar o exterior, numa admiração pelo poeta, músico e pensador que é Sérgio. Foi uma das peças que compôs a intervenção no tempo do Estado Novo, e uma das maiores. Esteve exilado em França, fugindo à Guerra Colonial e forçado pelos seus ideais políticos e pela sua necessidade em lutar e em fazer lutar. Durante o exílio participou em peças de teatro, editou dois discos e teve contacto com outros portugueses de um enorme valor que estavam “por terras de França” pelas mesmas razões, eram estes José Mário Branco, Luís Cília e José Afonso.
A validade da música surge de várias origens, uma delas é o seu valor textual – o valor da letra e da mensagem que transporta – uma outra é o nível estético que alcança pelas suas harmonias, melodias e arranjos. Sérgio Godinho consegue juntar as duas origens de uma forma única e bela. As harmonias arrojadas e os seus textos distinguem-no de outros tantos músicos e poetas. Arrasta gerações consigo, pais, filhos e netos, e faz questão de ser acompanhado por jovens músicos.
Há dois álbuns dele que são um marco na música ligeira e que devem fazer parte do conhecimento de qualquer apreciador de música: “Os Sobreviventes”, escrito e editado em França no ano 1971, é o seu álbum de estreia, um grito de revolta e de inspiração; o outro é “Coincidências”, editado em 1983, numa fase muito mais madura de Sérgio, sobretudo a nível musical, menos político, mais melódico e apaixonante.
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